Rails Girls 2016

Postado 21 de dezembro de 2016

O Rails Girls São Paulo aconteceu no prédio da Viva Real, nos dias 09 e 10 de dezembro. E nós participamos como coaches para ajudar. O evento, voltado para o público feminino, nasceu na Finlândia e rapidamente ganhou o mundo, trazendo às mulheres uma boa oportunidade para aprender, praticar e se engajar em projetos em uma área cuja predominância ainda é, infelizmente, masculina. Segundo o próprio site do Rails Girls:

Nosso objetivo é dar ferramentas e uma comunidade para que as mulheres compreendam a tecnologia e construam suas ideias. Fazemos isso fornecendo uma ótima experiência em construir coisas e tornando-a mais acessível.

O propósito do evento é ser inclusivo não apenas na questão do gênero, mas também para pessoas que estão dando seus primeiros passos no mundo de TI. O dinheiro para a organização vem de patrocinadores que apostam no poder das mulheres e também de doações da própria comunidade.

A Thaís Campos, que trabalha com a gente aqui na Youse, relutou em participar do evento, pois a tecnologia é uma área historicamente hostil para as mulheres.

Pensei muito a respeito da minha inscrição por achar que talvez não tivesse a senioridade adequada para passar algo para as meninas, que todos os anos vão ao evento em busca de conhecimento. Com a ajuda e incentivo de amigos e colegas de trabalho, percebi que elas só precisavam de um pontapé inicial que poderia mudar o rumo de suas vidas. Por que não ajudar? Se eu não tentasse, nunca saberia e lá fui eu com todo carinho e dedicação participar do evento. Hoje tenho a certeza de que contribuí, de certa forma, para o futuro daquelas garotas.

No primeiro dia, as participantes configuraram seus notebooks com o Ubuntu utilizando um pendrive bootável que foi entregue no kit de boas vindas. Os coaches ajudaram a instalar Ruby, Rails e Git, ferramentas que seriam necessárias no workshop do dia seguinte. Além disso, assistimos à duas palestras: Empoderamento Feminino em TI, com Alda Rocha, e Introdução ao Git, com Maitê Balhester.

Foi um dia interessante, mas a verdadeira diversão estava reservada para o sábado. O dia começou com um belo café da manhã, seguido por mais duas palestras: Introdução a APIs, com Thamara Hessel e Introdução a Ruby, com Carolina Karklis.

No geral, as palestras, apesar de boas, não foram feitas para pessoas que estão começando. Normalmente as participantes apenas repetiam os comandos dos slides sem entender muito bem o que estavam fazendo. Faltou um pouco de teoria, do porquê das coisas e, por mais que os coaches tentassem ajudá-las, era difícil explicar com a palestra em andamento. Na hora de botar a mão na massa, todas elas já tinham usado o Git na noite anterior, porém, nenhuma sabia o que era o software ou para que ele servia.

Então, começou o workshop. Cada mesa deveria escolher, planejar e finalizar um projeto até às 16h, quando começariam as apresentações. Dava pra sentir a energia no ar, a vontade de criar e de aprender. Agrupar as pessoas em mesas acabou forçando todos a fazer networking e isso foi positivo, afinal, é fundamental conhecer outras pessoas que estão na mesma luta que a gente, não é?

Workshop no Rails Girls

Como coaches, resolvemos testar o modelo de Dojo: usaríamos apenas um notebook, com uma pessoa no teclado e a outra como suporte. A ideia era trocar os papéis a cada 5 minutos, o que tornou o dia dinâmico e muito produtivo, pois todas se envolveram em cada uma das etapas do processo de criação do site. Mais importante do que isso: elas eram obrigadas a aprender a como pesquisar. Nós só explicávamos como usar os recursos do Ruby depois que elas tinham encontrado alguma coisa no Rails Guides ou no Google.

No início, sentimos que elas tinham receio de fazer perguntas. Foi importante mostrar, durante o desenvolvimento do projeto, que não existe dúvida banal e que caso não soubéssemos a resposta nós também iríamos usar a internet, assim como elas estavam fazendo. Isso fez com que elas se sentissem confortáveis para perguntar quantas vezes fossem necessárias.

Os feedbacks de quem participou foram os melhores possíveis. Na nossa mesa, por exemplo, trocamos contatos e vamos começar um grupo de estudos ano que vem! Foi uma conquista começar um projeto do zero e finalizá-lo em apenas algumas horas, principalmente porque, dois dias antes, muitas não tinham ideia de como se fazia um site. Outro ponto positivo que ouvi foi que, com o evento, ficou claro que não é preciso ser um gênio para programar: as pessoas ali eram todas normais e estavam se ajudando, desmistificando um pouco a imagem que tinham criado em torno da programação e da web.

Além disso, apesar dos relatos de abuso, provocação e preconceito, as mulheres saíram do evento com a certeza de que existem homens dispostos a ajudar sem ganhar nada em troca. Saber que não estão sozinhas deu a elas mais motivação para seguir em frente.

Uma dica para quem está começando e que vale para tudo, não apenas para programação, está no livro Criatividade Empática, da Bia Lombardi:

Ao invés de seguir sua paixão, siga sua curiosidade. A paixão queima rápido, ela vai e vem. Curiosidade é tão acessível e disponível, está ali todos os dias da sua vida.

Foi um evento fantástico, divertido e cheio de energia. Fica aqui nossa salva de palmas a todos que organizaram o Rails Girls e que ajudaram a fazê-lo acontecer. Agora que ele terminou, resta para o ano que vem apenas aquele famoso gostinho de quero mais.

Ps.: Como complemento, ainda sobre o assunto da inclusão, recomendamos muito este artigo em inglês publicado no blog Code As Craft, da Etsy.  

Por Artur Caliendo Prado e Thaís de Campos